Tourada

Capa do single TouradaFonte: Wikipédia


Não importa sol ou sombraCamarotes ou barreirasToureamos ombro a ombro as ferasNinguém nos leva ao enganoToureamos mano a manoSó nos podem causar dano esperas

Entram guizos, chocas e capotesE mantilhas pretasEntram espadas, chifres e derrotesE alguns poetasEntram bravos, cravos e dichotesPorque tudo mais são tretas

Entram vacas depois dos forcadosQue não pegam nadaSoam bravos e olés dos nabosQue não pagam nadaE só ficam os peões de bregaCuja profissão não pega

Com bandarilhas de esperançaAfugentamos a feraEstamos na praça da primaveraNós vamos pegar o mundoPelos cornos da desgraçaE fazermos da tristeza graça

Entram velhas, doidas e turistasEntram excursõesEntram benefícios e cronistasEntram aldrabõesEntram marialvas e coristasEntram galifões de crista

Entram cavaleiros à garupaDo seu heroísmoEntra aquela música malucaDo passodoblismoEntra a aficcionada e a caducaMais o snobismo e cismo

Entram empresários moralistasEntram frustraçõesEntram antiquários e fadistasE contradiçõesE entra muito dólar, muita genteQue dá lucro aos milhões

E diz o inteligente que acabaram as canções



Letra: Ary dos Santos | Compositor e Intérprete : Fernando Tordo | Maestro: Jorge Costa Pinto | Orquestrador: Pedro Osório

Vencedora do festival da canção de 1973


 


A Tourada é uma metáfora. A arena, os touros e os intervenientes representam a sociedade portuguesa da época.

Interpretada por Fernando Tordo com letra de Ary dos Santos, é uma das músicas mais marcantes da história recente de Portugal. Foi apresentada em 1973 e venceu o Festival RTP da Canção, representando depois Portugal na Eurovisão.

O mais importante é o momento em que surge, ainda durante o regime do Estado Novo, numa fase final marcada por censura, repressão e guerra colonial.

A Tourada simboliza o próprio regime e o espetáculo político-social. As figuras que "entram" (turistas, aldrabões, empresários... ) representam diferentes grupos sociais. O ambiente caótico e quase grotesco critica a hipocrisia, o oportunismo e o atraso do país.

A letra foi entendida como uma crítica indireta ao Estado Novo e à liderança de Marcelo Caetano, usando linguagem simbólica para escapar à censura. O mais curioso é que a censura não percebeu totalmente a mensagem, o que permitiu que a música passasse e fosse amplamente divulgada.

Tornou-se um marco da música portuguesa e da resistência cultural e antecipou, de certa forma, o espírito crítico que culminaria no 25 de Abril de 1974.


Memórias Sem Tempo, abril de 2026


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